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Francisco Panizo
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O Câncer sob controle III |
Novas drogas mudam o perfil da doença, que pode passar rapidamente a ser crônica e
administrável, como o diabetes ou a hipertensãosão hoje em dia. |
A genética desempenha papel fundamental no sucesso ou fracasso das drogas. O cientista Dennis
C. Sgroi, da Harvard Medical School, revelou a existência de dois genes (HOXB13 e IL17BR) que
influenciam o resultado do tratamento com tamoxifeno nos casos iniciais de câncer de mama. A
informação é relevante porque o uso dessa droga durante cinco anos tornou-se o tratamento-
padrão nesse tipo de câncer. O tamoxifeno reduz o risco de recorrência do tumor em mulheres
tratadas nos estágios iniciais, pois bloqueia os efeitos do estrógeno no organismo. Ainda assim,
um terço delas sofre com o retorno da doença em dez anos. 'Poderemos definir quais pacientes o
remédio não vai proteger e oferecer a elas novas opções', explica.
Na mesma linha, um estudo espanhol do Instituto Catalão de Oncologia revelou que uma pequena
alteração no gene CYP19 aumenta a eficiência da droga letrozole (Femara) em mulheres com
câncer de mama metastático. Em outubro, um artigo do The New England Journal of Medicine
demonstrou que o remédio reduz em 43% o risco de retorno da doença quando administrado
depois dos cinco anos de tamoxifeno (leia na última página).
Esses achados da genética podem levar ao desenvolvimento comercial de testes simples para
determinar quais pacientes serão beneficiados pelos remédios. São vários os exemplos de
substâncias que demonstram ação surpreendente em alguns deles, mas não trazem nenhum
benefício a outros. É o caso do Iressa (gefitinib), uma das drogas inteligentes mais festejadas dos
últimos tempos. Ele aumenta a sobrevida de 10% dos pacientes, mas não traz grandes vantagens
para os restantes.
A dona de casa brasiliense Isabella Arantes, de 42 anos, tinha os pulmões tomados por inúmeros
tumores em meados de 2002. Especialistas estimaram que ela viveria no máximo um trimestre.
Experimentou o Iressa e, quatro meses depois, os tumores começaram a regredir. É inegável que
o remédio teve papel fundamental, mas os médicos acreditam que o nascimento de Eduarda, a
netinha de 1 ano e meio, também contribuiu para sua recuperação. 'Ela encheu minha casa de
vida', diz Isabella. Para manter o câncer sob controle, ela precisa tomar um comprimido do
remédio (ainda não aprovado no Brasil) todos os dias, por toda a vida.
Histórias como a da brasiliense tendem a ser cada vez mais comuns. O Tarceva (erlotinib), outra
droga em forma de pílula e altamente tolerável, aumenta em 40% a sobrevida dos pacientes com
câncer de pulmão avançado, segundo estudo da canadense Frances Shepherd, do Princess
Margaret Hospital, em Toronto. As vitórias devem ser comemoradas, mas um dos grandes
desafios nessa batalha é esmiuçar o processo de metástase, o reaparecimento do câncer em
outro ponto do organismo tempos depois de o paciente julgar-se curado. Mais de 90% das mortes
são causadas por ela, e não pelo primeiro tumor. Apesar disso, poucos pesquisadores se dedicam
a entender esse processo. 'As células capazes de iniciar metástases surgem cedo, muito antes
que possam ser identificadas, e passeiam pela corrente sanguínea', explica Ricardo Brentani,
presidente do Hospital do Câncer, em São Paulo. A boa notícia é que as causas de 75% dos
tumores são conhecidas: fumo, álcool, sedentarismo, alimentação desbalanceada, infecções por
vírus, predisposição genética. O controle de pelo menos quatro dessas variáveis está ao alcance
de todos.
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