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Francisco Panizo
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O Câncer sob controle II |
Novas drogas mudam o perfil da doença, que pode passar rapidamente a ser crônica e
administrável, como o diabetes ou a hipertensãosão hoje em dia. |
Nesse campo, uma das grandes novidades apresentadas em New Orleans foi o conceito dois-em-
um: atacar o tumor por flancos diferentes. A droga experimental SU11248, da Pfizer, demonstrou
ação contra o GIST quando o Glivec falha, além de funcionar em tumores renais avançados. Ela
bloqueia os sinais bioquímicos no interior da célula maligna e, ao mesmo tempo, inibe a criação
de vasos sanguíneos ao redor do tumor. Sem essa irrigação, o câncer morre de fome - é a
chamada antiangiogênese.
Outra forma de produzir os ataques simultâneos é combinar dois remédios com funções
diferentes. Um estudo comprovou que o Avastin (bevacizumab) funciona contra tumores renais
quando combinado ao Tarceva (erlotinib), ainda em desenvolvimento. A dupla mostrou-se cinco
vezes mais efetiva no combate ao câncer de rim do que o tratamento convencional.
Esses trabalhos demonstram que as drogas direcionadas a alvos específicos - menos tóxicas que
a quimioterapia - aumentam a sobrevida nos cânceres raros e agressivos. Mas os estudos
também dizem respeito a outras formas da doença. 'A descoberta pode contribuir para a
melhoria do tratamento de tumores bem mais comuns, mas que utilizam os mesmos mecanismos
para invadir os tecidos e criar metástases', afirma o cientista Roy S. Herbst, do M.D. Anderson
Cancer Center, em Houston, Texas. 'Outra grande vantagem é que essas drogas são
comprimidos fáceis de tolerar.'
A criação de mais armas contra os tumores tornou-se o principal foco de atenção da indústria
farmacêutica. Existem hoje quase 400 drogas antitumorais sendo testadas. Contra as doenças
cardiovasculares, a principal causa de morte em todo o mundo, são 120 drogas em teste. As
companhias também investem em usos diferentes para os produtos recém-chegados ao mercado,
como o Glivec, que vem sendo avaliado em cânceres de próstata, pulmão, mama e glioblastoma,
um tumor cerebral agressivo e até hoje sem possibilidade de cura.
Para a gaúcha Virgínia Salvá, de 47 anos, participar desses estudos era a única chance de seguir
em frente. Apesar da cirurgia que extirpou parte do tumor cerebral e das sessões de
quimioterapia, a bancária aposentada perde habilidades dia após dia. Sofre lapsos de memória,
caminha com dificuldade, enxerga cada vez menos. Há dois meses, começou a tomar o Glivec,
que interrompeu o crescimento do tumor. 'Não pergunto qual é minha perspectiva de vida.
Estatísticas não me interessam', diz Virgínia.
O conhecimento das bases moleculares do câncer antes da escolha do tratamento é fundamental.
Em pouco tempo, essa investigação será rotina no consultório dos oncologistas, assim como toda
conversa com o clínico-geral começa com um hemograma. Logo depois da biópsia, os genes do
tumor serão avaliados para guiar o médico na escolha do tratamento. Em vez de eleger o
remédio com base na localização do câncer ou de acordo com as características de agressividade
verificadas sob o microscópio, o especialista indicará a droga especialmente projetada para
embaralhar sinais vitais dentro das células cancerosas e impedir seu avanço.
Novos remédios funcionam como mísseis teleguiados e certeiros
A escolha da melhor droga também será baseada em características genéticas do paciente que
influenciam a resposta aos remédios e a capacidade de suportar efeitos colaterais. Ou seja: antes
do início do tratamento, já se saberá se vale a pena enfrentar os efeitos tóxicos da quimioterapia
ou gastar milhares de reais com as drogas novas. É a chamada farmacogenômica, uma área em
ebulição que traz fôlego novo às pesquisas e comprova que a era do tratamento
ultrapersonalizado já começou. O pesquisador Jeff A. Sloan, da Mayo Clinic, observou que
mutações em dois genes relacionados à saúde celular predizem o nível de fadiga, diarréia e
náuseas que os indivíduos vão sentir depois da quimioterapia.
continua...
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